Já escrevi sobre o amor
E seus efeitos em mim
Já escrevi sobre a morte
E como vejo o fim
Já escrevi sobre a dor
Com meu peito em angústia e ardor
Mas eu gosto é de metapoesia
Da palavra dita e não dita
De fazer da poesia, poesia
Com as palavras me deleito
Com elas me deito
E começo a versar
Vejo suas formas
Toco suas curvas
Provo seus sabores
E sinto seus aromas
Com as palavras eu brinco
Eu troco
Eu tiro
Eu coloco
Até ela e eu
A poesia e eu
Perdermos qualquer vergonha
E nos encharcarmos
Num último verso
-
Sobre o que escrevo
-
Os últimos segundos antes da morte
Alguns segundos antes da morte
Há culpa e desculpas por estar morrendo
Alguns segundos antes da morte
Sinto meus olhos escurecendo
Se tempo houvesse
Para que meu pranto escorresse
Minhas lágrimas não seriam surpresa
Se alguém aparecesse
O nó na garganta
não me deixa cantar
Mas nesse lento tempo
não há tempo nem de gritar
Alguns segundos antes da morte
Não é a vida toda que passa em vão
Nos últimos segundos antes do fim
Olho nos olhos
Aqueles caros ao meu coração
Sinto a última nota
Do meu corpo a tocar
E num breve sopro
Me deito nos braços abertos
Da agora eterna escuridão -
Bookster
Fui buscar num livro
o que era poesia.
Mas nem precisei abrir.
Olhando suas curvas e retas,
vi que um livro
é poesia em si. -
Brasil, 2018
Protestar aos gritos
Para ser calado.
A mais infeliz contradição.
Num país que anseia
Pelo passado,
Um mergulho nas trevas
É a conclusão.
Sem dar nem um ‘Olá’,
Pode chegar e demorar a partir.
Usemos de sabedoria agora,
Ou por muitos dias
Vamos deixar de sorrir. -
Eu não escrevo poesias
Não, eu não escrevo poesias,
são elas que me perseguem.
Quando dou por mim,
lá estão elas, faceiras,
me olhando.
No banho,
no café que tomo,
na música que ouço…
Eu não escrevo poesias,
deixo que elas,
por conta própria,
transbordem pelos meus dedos.
Não escrevo poesias,
Apenas dou o espaço que elas precisam
e não as calo. -
Para ser poeta
Com quantas poesias
podemos nos chamar poetas?
Penso que numa única vida
não há tempo suficiente
para que nos tornemos tão puros
para sermos poetas.
Fazemos no máximo uns rascunhos,
que devem ser aperfeiçoados
por existências a fio.
Os grandes?
Ah, estes não são humanos,
são a poesia em si. -
Onde está a poesia?
Às vezes, a poesia está no que vemos
e não no que dizemos.
Às vezes, a poesia está no toque da pele
com outra pele.
Às vezes, a poesia está na brisa que beija nosso rosto.
Pode ser que a poesia
se esconda naqueles olhos.
Pode ser que a poesia
esteja no silêncio
Ou no luar
Ou no mar
A poesia está naquilo que sentimos
Seja ao adormecer,
Seja ao despertar.